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CPI não tem competência para descobrir um bom mentiroso

Perdi a conta de quantas vezes ouvi os senadores dizendo na CPI da Covid-19 que o depoente estava mentindo. Os argumentos são de toda ordem: ‘V. Senhoria caiu em contradição’; ‘V. Senhoria está se referindo a datas que não coincidem com os depoimentos anteriores’; ‘V. Senhoria tenta convencer com essa voz mansa, mas está errada’.
Em algumas situações, talvez pela falta de argumentos mais consistentes, os inquiridores apelam para a gritaria, interrompendo quem está falando. Segundo os senadores governistas, o relator já tem um texto pronto para atacar o Presidente da República, e, por isso, usa de todos os meios, até da intimidação, para obter respostas que reforcem as suas teses. Pelo andar da carruagem, será difícil para esta CPI chegar a uma conclusão convincente. Agora deram início ao vai e volta.

Não satisfeitos com as longas horas consumidas com perguntas repetitivas ao ministro da Saúde, em poucos dias fizeram a reconvocação de Marcelo Queiroga para nova bateria de questionamentos. Durante o depoimento do ministro, o senador Otto Alencar afirmou que o depoente “não falou a verdade”. Indignado por ter sido chamado de “mentiroso”, Queiroga reagiu. O senador, por sua vez, garantiu que não o havia chamado de “mentiroso”. Pois é, até as filigranas eufemísticas começam a participar da CPI. O senador Marcos Rogério se revoltou com essa decisão, pois, segundo ele, seria mais conveniente ter chamado antes os governadores e prefeitos acusados de desvio de recursos. Por isso, dia sim, outro também, o Senado, com o bate-boca entre os senadores, de acordo com alguns analistas, vira um verdadeiro teatro.

Como saber, entretanto, se as pessoas convocadas pela oposição ou pela situação dizem a verdade? Não é fácil. E em determinadas circunstâncias se torna até impossível descobrir. Sentar naquela cadeira e suportar o ataque vociferante dos senadores não é para gente frouxa não. Por outro lado, a maioria dos depoentes, no desempenho de suas atividades, está acostumada a enfrentar circunstâncias hostis. Além disso, embora não confessem, passaram por intenso treinamento de mídia training. Sabem de cor e salteado a resposta para cada pergunta formulada. Segundo o filósofo e psicólogo David Livingstone Smith, que dirige o Instituto de Ciência Cognitiva e Psicologia Evolutiva da Universidade da Nova Inglaterra, Estados Unidos “mentir é a garantia para o sucesso nos negócios, na política e na vida social. Quem não souber mentir fica à margem da sociedade”.

Ficou chocado? Então espere para ver o que vem a seguir. Em seu livro “Os fundamentos biológicos e psicológicos da mentira”, ele afirma que uma pessoa conta em média três mentiras a cada dez minutos. Assim como você, eu também achei esses números muito exagerados. É assustador pensar que na conversa de uma hora iremos ouvir por volta de dezoito mentiras. Por isso, vamos supor que o pesquisador “mentiu”, ou melhor, tenha se equivocado. Imaginemos que a sua mão estava pesada e, no momento de fazer as anotações, multiplicou por três. Mesmo assim, seis lorotas nesse tempo é mentira para ninguém botar defeito. Significa que não dá para saber se um depoente na CPI está mentindo ou não? Até dá, mas é bastante difícil. Segundo o pesquisador, apenas uma em cada mil pessoas consegue perceber quando alguém está mentindo. Ter essa pessoa entre os senadores seria quase um milagre. O que fazer nessa circunstância? Ouvir vários depoentes é uma boa estratégia. Por mais bem preparados que eles estejam, um ou outro pode escorregar em uma informação e contradizer o que o antecessor disse.

Imaginando a hipótese de que o depoente esteja mentindo, ele precisará contar com a memória para se lembrar do que foi treinado. Nesse caso, por mais bem preparada que a pessoa esteja, como a CPI é um ambiente muito constrangedor, o nervosismo pode provocar desequilíbrios emocionais e fazer com que o depoente se perca em parte de suas respostas. Se quem fizer as perguntas for astuto e souber interpretar o comportamento das pessoas, ficará atento aos detalhes. Uma das táticas do bom mentiroso é contar muitas verdades, e no meio das informações verdadeiras, usando o mesmo tom de voz e ritmo da fala, incluir a mentira. É preciso estar vigilante para não ser levado a acreditar que tudo o que a pessoa diz é verdade.

Wilhelm Reich na obra “Análise do caráter” diz que “a linguagem humana atua, interfere na linguagem da face e do corpo. Por isso, a expressão total de um organismo deve ser literalmente idêntica à impressão total que o organismo provoca em nós”. Não me parece, entretanto, que as excelências incumbidas de formular as perguntas estejam tão bem preparadas para fazer esse tipo de leitura. Essa é uma tarefa para psicólogos e psiquiatras traquejados, acostumados a ouvir nas pausas, entender as entrelinhas, e ler os pequenos e quase imperceptíveis movimentos da linguagem corporal. Por essas e por outras, quem tiver tempo, paciência e gostar de um bom espetáculo pode preparar a pipoca, pôr a cervejinha do lado e acompanhar o show. Teremos ainda pelo menos uns dois meses pela frente. Siga no instagram @polito.

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