Levantamento da Confederação Nacional da Indústria estima que mais de 4 mil produtos brasileiros correm risco antes do prazo final de negociação, em 15 de julho.
A poucos dias do prazo final para um possível acordo comercial entre Brasil e Estados Unidos, uma nova estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) reacende a pergunta que preocupa exportadores, empresários e trabalhadores de setores estratégicos: quanto a indústria brasileira teria a perder caso Washington confirme as novas tarifas em discussão? Segundo a entidade, a possível tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros pode afetar cerca de 4,1 mil itens exportados pelo país, o equivalente a US$ 14,9 bilhões em exportações. O dado foi divulgado na segunda-feira, dia 6 de julho, mesmo dia em que começaram audiências públicas em Washington sobre o tema. Entenda a seguir o que está em jogo, os bastidores da negociação e os possíveis impactos para a economia brasileira. Correio Braziliense
O que diz o levantamento da CNI
De acordo com a CNI, cerca de 4.187 produtos exportados pelo Brasil podem ser afetados caso o governo dos Estados Unidos adote as novas propostas de taxação, de 25% e 12,5%, o que equivale a US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras. Em reais, na cotação atual, esse valor equivale a aproximadamente R$ 77,2 bilhões. Todos esses produtos já estão hoje submetidos a uma tarifa adicional temporária de 10%, prevista na Seção 122 da legislação comercial norte-americana, válida até o dia 24 de julho. Entre os itens que podem sofrer a nova cobrança estão ferro-gusa não ligado, açúcar bruto, álcool etílico, molduras de madeira e hidróxido de alumínio, além de setores como máquinas pesadas, transformadores elétricos, madeira e granito trabalhado. Diário do ComércioMeio Norte
As audiências públicas em Washington analisam duas propostas distintas apresentadas pelo governo americano. A primeira prevê uma sobretaxa de 25% direcionada especificamente ao Brasil, com base em investigação conduzida sob a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. A segunda estabelece uma tarifa adicional de 12,5%, ligada a uma investigação sobre trabalho forçado que também inclui o país. Vale registrar que alguns produtos, como carne bovina, café, terras raras, outros metais e peças de aeronaves, estão excluídos da nova tarifa em discussão, o que reduz parcialmente o alcance da medida sobre a pauta exportadora brasileira.
Os bastidores da negociação entre Brasil e Estados Unidos
A origem do imbróglio remonta a uma investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) em julho de 2025, que concluiu que determinadas políticas e práticas comerciais brasileiras seriam, na visão americana, irrazoáveis e prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos. Entre os temas citados pelo USTR estão o comércio digital envolvendo o Pix, tarifas sobre a importação de etanol, proteção à propriedade intelectual e desmatamento ilegal. O prazo legal para a eventual adoção da nova tarifa é 15 de julho de 2026, data até a qual as negociações bilaterais precisam avançar para evitar a medida.
O governo brasileiro rejeitou formalmente as acusações e apresentou, na semana anterior às audiências, um documento contestando os argumentos da investigação americana. A CNI, por sua vez, enviou o diplomata e ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevêdo, para representar o setor produtivo brasileiro nas audiências em Washington. O presidente da entidade, Ricardo Alban, que permaneceu no Brasil, afirmou que a cobrança “não se justifica sob os aspectos jurídico, econômico e estratégico” e defendeu o diálogo como caminho mais adequado para preservar a relação comercial entre os dois países, construída ao longo de décadas.
Os possíveis impactos para a indústria e para os consumidores
Internamente, integrantes do governo brasileiro avaliam que a recomendação do USTR tem motivação política e desconsidera parte dos argumentos técnicos apresentados pelo país ao longo da negociação. A expectativa, segundo essa leitura, é de que uma reversão completa da proposta seja pouco provável, mas ainda exista espaço para uma redução da alíquota final ou para a criação de exceções voltadas a produtos específicos. Enquanto isso, representantes de setores diretamente afetados, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, participam das audiências para defender seus interesses junto ao governo americano.
Do ponto de vista econômico mais amplo, cadeias produtivas integradas entre Brasil e Estados Unidos tendem a sofrer dos dois lados caso a tarifa avance, já que diversos produtos brasileiros funcionam como insumo relevante para a indústria americana. Esse tipo de interdependência costuma ser um dos principais argumentos usados pelo setor produtivo em negociações comerciais desse porte, já que o custo de uma tarifação elevada não fica restrito ao país exportador, mas se espalha por toda a cadeia de fornecimento envolvida.
O desfecho dessa negociação deve se definir nos próximos dias, antes do prazo de 15 de julho. Até lá, o setor industrial brasileiro segue em compasso de espera, acompanhando de perto o resultado das audiências em Washington e o andamento das conversas diplomáticas entre os dois governos. Independentemente do resultado final, o episódio já deixa evidente o quanto a pauta exportadora nacional está exposta a decisões tomadas fora do país, e reforça a importância de diversificação de mercados como estratégia de longo prazo para a indústria brasileira.
Fontes:
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/07/7455816-tarifa-de-25-dos-eua-pode-atingir-41-mil-produtos-brasileiros-estima-cni.html
https://www.meionews.com/noticias/economia/tarifaco-dos-eua-pode-afetar-r-77-2-bilhoes-em-exportacoes-brasileiras-estima-industria-568709
https://diariodocomercio.com.br/economia/tarifas-eua-exportacoes-brasil-cni/
https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-06/governo-dos-eua-propoe-nova-tarifa-sobre-produtos-brasileiros