Levantamento da CNI mostra queda no índice de confiança do empresário industrial e reforça o pessimismo persistente no setor produtivo nacional.
A confiança do empresário industrial brasileiro voltou a cair em junho, conforme dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O Índice de Confiança do Empresário Industrial, conhecido como ICEI, recuou 0,5 ponto e passou de 47,2 para 46,7 pontos. Com isso, o indicador permanece abaixo da linha dos 50 pontos, fronteira que separa um cenário de otimismo de um quadro de pessimismo entre os industriais. O dado chama atenção porque marca o décimo oitavo mês consecutivo nessa condição, a segunda pior sequência negativa da série histórica da pesquisa, superada apenas pelo período da recessão de 2015 e 2016. Para quem acompanha a economia, a dúvida natural é entender por que o pessimismo persiste mesmo com sinais pontuais de melhora em alguns setores, e o que esse cenário pode significar para emprego, investimentos e preços nos próximos meses.
O que revela o novo levantamento da CNI sobre a confiança industrial
A pesquisa do ICEI, realizada pela CNI entre os dias 1º e 9 de junho, ouviu 1.170 empresas de diferentes portes, sendo 470 pequenas, 425 médias e 275 grandes. O resultado mostrou piora tanto na avaliação das condições atuais quanto nas expectativas para o futuro, o que ajuda a explicar a queda do índice geral. O índice de condições atuais, que mede como os empresários avaliam o momento presente das empresas e da economia, caiu 0,6 ponto, passando de 42,9 para 42,3 pontos. Já o índice de expectativas, que reflete a percepção sobre os próximos seis meses, recuou 0,4 ponto, de 49,3 para 48,9 pontos. Ambos os recortes se distanciam ainda mais da linha dos 50 pontos, reforçando a leitura de que o ambiente de negócios para a indústria continua desafiador.
Vale lembrar que o cenário não é de queda contínua e linear. Em maio, o ICEI havia subido 2 pontos, saindo de 45,2 para 47,2 pontos, o que encerrou uma sequência de três quedas consecutivas registradas entre fevereiro e abril. Ainda assim, aquela melhora reverteu apenas parte da perda acumulada nos meses anteriores, e o resultado de junho mostra que a recuperação não se sustentou. Esse movimento de altos e baixos, sem conseguir romper a barreira dos 50 pontos, é o que caracteriza o atual período de quase um ano e meio de pessimismo entre os empresários da indústria.
Por que os empresários da indústria estão pessimistas há um ano e meio
Entre os fatores que explicam esse cenário prolongado de falta de confiança está o nível elevado da taxa básica de juros, a Selic, que permaneceu em patamares restritivos por boa parte do último ano. Juros altos encarecem o crédito e tornam mais caro financiar máquinas, equipamentos e capital de giro, o que tende a postergar decisões de investimento por parte das indústrias. Esse efeito já havia sido apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao analisar o desempenho da produção industrial em períodos recentes, quando a política monetária restritiva foi citada como uma das causas da perda de ritmo do setor ao longo de 2025.
Além da questão dos juros, o ambiente externo também pesa nas expectativas dos industriais. A possibilidade de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, em discussão nos últimos meses, adiciona um componente de incerteza para empresas que dependem do mercado americano. Some-se a isso o custo da energia elétrica, apontado por representantes do setor como um dos itens que reduzem a competitividade da indústria nacional frente a outros países. A combinação desses fatores ajuda a entender por que, mesmo em meses de leve recuperação da produção física, a confiança dos empresários segue baixa e instável.
Quais os impactos da falta de confiança para emprego, investimento e preços
Quando o empresário industrial está pessimista, a tendência natural é segurar decisões que envolvem risco, como contratação de novos funcionários, abertura de novas linhas de produção e ampliação de capacidade instalada. Esse comportamento mais cauteloso pode explicar por que o ritmo de geração de vagas formais na indústria, embora ainda positivo, tem perdido força em alguns meses de 2026, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Quando a confiança não se recupera de forma consistente, o investimento em modernização também tende a ficar represado, o que pode comprometer a competitividade da indústria brasileira no médio prazo.
Do lado dos preços, um cenário de baixa confiança não significa necessariamente reajustes imediatos, mas pode influenciar decisões de repasse de custos quando há pressões externas, como variação do dólar ou aumento no preço de insumos importados. Para o consumidor final, o reflexo costuma aparecer de forma indireta, por meio de menor disponibilidade de crédito para empresas e postergação de contratações. Especialistas têm reforçado que a melhora consistente do ICEI depende, sobretudo, de uma trajetória mais clara de queda da Selic e de sinais de estabilidade nas relações comerciais externas do Brasil.
Os números divulgados pela CNI mostram que a indústria brasileira atravessa um momento delicado, marcado por incerteza e cautela entre os empresários. Embora a produção física do setor tenha registrado avanços pontuais ao longo dos últimos meses, segundo o IBGE, a confiança não acompanhou esse movimento na mesma intensidade. Para os próximos meses, o comportamento da Selic, o desfecho das negociações comerciais com os Estados Unidos e o custo da energia devem continuar no centro das atenções de quem acompanha o desempenho da indústria nacional. Acompanhar esses indicadores ajuda empresários, trabalhadores e investidores a entender melhor os próximos passos da economia brasileira e a se preparar para os cenários que ainda estão por vir no setor produtivo do país.
Fontes: CNN Brasil | Portal da Indústria – CNI | Agência Brasil
Autor: Diego Rodríguez Velázquez