Proposta do governo americano preocupa a CNI e amplia a incerteza sobre o comércio exterior da indústria nacional nos próximos meses.
O governo dos Estados Unidos avalia aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros, em uma medida que pode alcançar até 37,5% em determinadas categorias de exportação. A proposta, conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, decorre de uma investigação aberta em julho de 2025 sobre práticas comerciais e regulatórias do Brasil. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de um terço das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano poderia ser impactado caso a medida avance. O tema ganhou ainda mais relevância nos últimos dias, à medida que se aproxima o calendário de consultas públicas e audiências previstas para julho. Para empresários, trabalhadores e quem acompanha a economia brasileira, a pergunta central é: quais setores serão mais afetados e o que pode acontecer a partir de agora.
O que prevê a nova proposta de tarifas dos Estados Unidos
A proposta do USTR estabelece diferentes faixas de tributação adicional sobre produtos brasileiros, podendo chegar ao patamar de 37,5% para uma série de mercadorias. De acordo com a análise feita pela CNI, caso as novas tarifas entrem em vigor, cerca de 31,6% das exportações brasileiras aos Estados Unidos passariam a pagar essa alíquota máxima, um salto de 27,5 pontos percentuais em relação à tarifa atual de 10%. Outra parcela, de 3,6% das exportações, teria aumento de 10% para 12,5%. Somando os dois grupos, a entidade estima que 35,2% das exportações brasileiras para o mercado americano ficariam sujeitas às novas regras, caso a proposta seja confirmada sem alterações.
A CNI também chama atenção para o efeito acumulado das medidas. Considerando as tarifas setoriais já em vigor, baseadas na Seção 232 da legislação comercial americana, a parcela das exportações brasileiras sujeita a alguma forma de taxação adicional pode chegar a 54,1%. Um exemplo citado pela própria entidade é o ferro-gusa, item que hoje paga 10% de tarifa adicional e passaria a pagar 37,5%, caso a proposta avance. Esse produto representou, sozinho, 1,5 bilhão de dólares em exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2024, o que ajuda a ilustrar o tamanho do impacto financeiro que a medida pode gerar para empresas exportadoras do setor.
Quais setores da indústria brasileira podem ser mais afetados
Segundo dados levantados pela própria CNI, as exportações de bens da indústria de transformação brasileira para os Estados Unidos já haviam encolhido em 2025, somando 30,2 bilhões de dólares, uma queda de 4,2% em relação ao ano anterior. Entre os quinze principais segmentos exportadores desse setor, nove registraram redução nos embarques para o mercado americano. As quedas mais expressivas ocorreram em produtos de metal, com recuo de 31,6%, seguidos por madeira, com 20%, celulose e papel, com 19,9%, e veículos automotores, com 17,6%. Esses números mostram que, mesmo antes da discussão sobre as novas tarifas, alguns setores já enfrentavam dificuldades para manter o ritmo de vendas ao mercado norte-americano.
Por outro lado, alguns produtos ficaram de fora da lista de exceções e continuam protegidos das novas alíquotas, como carne bovina, café, terras raras, outros metais estratégicos, peças de aeronaves, frutas, nozes, petróleo e energia. Essa diferenciação por categoria de produto faz com que o impacto da medida não seja uniforme entre os setores da indústria brasileira. Enquanto alguns segmentos, como metalurgia e produtos de madeira, podem sentir o efeito de forma mais direta, outros, ligados a commodities estratégicas, tendem a manter as condições atuais de acesso ao mercado americano, ao menos enquanto a proposta estiver em fase de consulta pública.
Como fica o cenário para os próximos meses
O cronograma anunciado pelo governo americano prevê o recebimento de comentários públicos sobre a proposta até 1º de julho, seguido de uma audiência pública agendada para o dia 6 de julho. O prazo legal para uma eventual adoção da nova tarifa termina em 15 de julho de 2026, o que deixa pouco tempo para que o tema seja resolvido por via diplomática antes da decisão final. Segundo a Agência Brasil, o governo brasileiro acompanha o assunto e mantém negociações com autoridades americanas na tentativa de evitar ou reduzir o impacto da medida sobre as empresas exportadoras nacionais.
Enquanto a definição não chega, a incerteza em si já é um fator que pesa sobre o planejamento das empresas, especialmente aquelas que dependem fortemente do mercado dos Estados Unidos. Investimentos em expansão de capacidade, contratos de longo prazo e estratégias de diversificação de mercados tendem a ficar em segundo plano até que haja mais clareza sobre o desfecho da disputa comercial. Para o consumidor brasileiro, o efeito mais provável, caso as tarifas avancem, é indireto, por meio de impactos no câmbio, na geração de empregos em setores exportadores e na arrecadação de divisas para o país.
A discussão sobre as tarifas americanas reforça um desafio que já é conhecido pela indústria brasileira: a necessidade de diversificar mercados e reduzir a dependência de um único parceiro comercial. Enquanto as negociações entre Brasília e Washington seguem em curso, empresários e analistas acompanham de perto cada novo capítulo dessa disputa, que pode redesenhar parte do comércio exterior brasileiro nos próximos anos. Até que o desfecho seja conhecido, a recomendação de especialistas em comércio internacional é que as empresas mais expostas ao mercado americano avaliem cenários alternativos e fortaleçam o diálogo com associações setoriais e órgãos do governo, de forma a estarem preparadas para diferentes resultados dessa negociação.
Fontes: Agência de Notícias da Indústria – CNI | Agência Brasil | Agência Brasil
Autor: Diego Rodríguez Velázquez